Pritzker 2026 vai para o arquiteto chileno Smiljan Radić Clarke

O Prêmio Pritzker, o mais importante da arquitetura mundial, foi concedido este ano ao arquiteto Smiljan Radić Clarke, nascido e radicado em Santiago, Chile. O anúncio, feito em março, reconhece mais de três décadas de uma prática dedicada à experimentação material e à atenção às dimensões emocionais do espaço construído. Radić é o 55º laureado na história do prêmio e o segundo chileno a recebê-lo, depois de Alejandro Aravena, vencedor em 2016.

No anúncio oficial, o júri destacou que “por meio de um corpo de obra posicionado na encruzilhada da incerteza, da experimentação material e da memória cultural, Smiljan Radić favorece a fragilidade em detrimento de qualquer pretensão injustificada de certeza”. Seus edifícios, segundo o júri, parecem temporários, instáveis ou deliberadamente inacabados, quase a ponto de desaparecer, mas oferecem um abrigo estruturado, otimista e silenciosamente alegre, abraçando a vulnerabilidade como condição intrínseca da experiência vivida.

Interior do Teatro Regional del Bío-Bío em Concepción, Chile.

Nascido em Santiago em uma família de imigrantes — avós paternos da ilha de Brač, na Croácia, e família materna do Reino Unido —, Radić cresceu com uma percepção aguçada da questão do pertencimento. “Às vezes, é preciso produzir as próprias raízes. Isso dá liberdade”, afirma. Seu caminho até a arquitetura foi marcado por dúvidas e descobertas sucessivas. Estudou na Pontificia Universidad Católica de Chile, foi reprovado na primeira tentativa de exame final e acabou viajando para estudar história em Veneza, período que considera a parte mais importante de sua formação. Fundou seu escritório homônimo em 1995, mantendo até hoje uma estrutura intencionalmente enxuta.

Pavilhão Serpentine em Londres, Inglaterra.

A obra de Radić não segue uma linguagem arquitetônica repetível. Cada projeto é tratado como uma investigação singular. No Restaurante Mestizo (Santiago, 2006), o edifício está parcialmente enterrado no solo. Na Pite House (Papudo, 2005), a orientação protege contra ventos predominantes. Na extensão do Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana (Santiago, 2013), a intervenção se dá por reutilização adaptativa. O Pavilhão Serpentine (Londres, 2014), uma casca translúcida de fibra de vidro apoiada sobre pedras de pedreiras locais, trouxe visibilidade internacional ao arquiteto. Já o Teatro Regional del Biobío (Concepción, 2018) modula luz e acústica por meio de um envelope semitranslúcido, onde textura e massa carregam tanto significado quanto a forma.

Alejandro Aravena, presidente do júri, comentou que Radić “é capaz de responder com originalidade radical, tornando óbvio o que não era óbvio. Ele retorna às fundações mais irredutíveis da arquitetura, explorando limites que ainda não haviam sido tocados. Desenvolvido em um contexto de circunstâncias implacáveis, da borda do mundo, com uma prática de apenas alguns colaboradores, ele é capaz de nos levar ao núcleo mais profundo do ambiente construído e da condição humana”.

Guatero Exhibition em Santiago, Chile.

Em 2017, Radić fundou a Fundación de Arquitectura Frágil, sediada em seu estúdio em Santiago, como plataforma de trocas e arquivo de trabalhos experimentais que alimenta seus próprios projetos. Sua obra se estende por residências, instituições culturais, instalações e espaços cívicos em países como Albânia, Áustria, Chile, Croácia, Espanha, França, Itália, Suíça e Reino Unido.

Ao reconhecer Smiljan Radić com o Pritzker 2026, a instituição destacou que a premiação se dá “por nos lembrar que a arquitetura é uma arte, na medida em que toca o cerne da condição humana; por permitir que a disciplina abrace a imperfeição e a fragilidade, oferecendo abrigos silenciosos em um mundo moldado pela incerteza, sem a necessidade de ser mais alta ou mais espetacular para importar”.

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