O Pavilhão das Culturas Brasileiras, o PACUBRA, é um edifício de Oscar Niemeyer que ficou fechado por anos no Parque Ibirapuera. Desde o último 25 de março, o prédio voltou a receber público, e pela primeira vez abriga um evento inteiramente dedicado à arquitetura brasileira. A BAB, Bienal de Arquitetura Brasileira, ocupa 20mil metros quadrados do edifício até 30 de abril, com pavilhões que representam os 26 estados, o Distrito Federal e a cidade de São Paulo. A marquise do Ibirapuera, também reaberta, volta a funcionar como percurso de chegada.

O ponto de partida do evento está em um dado relevante. Segundo pesquisa Datafolha encomendada pelo CAU Brasil em 2022, apenas 9% das reformas no país envolvem um arquiteto. A BAB, idealizada por Anna Rafaela Torino, Raphael Tristão e Felipe Zullino, fundadores da plataforma de contratação de projetos Archa, aposta que parte desse distanciamento é cultural.
O que organiza a exposição é uma decisão conceitual do masterplan, assinado pelo arquiteto gaúcho Leonardo Zanatta, que propôs abandonar a divisão política do território brasileiro e reorganizar os estados pelos seis biomas: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Zanatta chamou o conceito de “Fronteiras Invisíveis”, e a ideia parte de uma observação elementar: as fronteiras que a fauna e a flora respeitam organicamente não coincidem com as linhas que o mapa político desenha. A cidade de São Paulo, por exemplo, está inteiramente na Mata Atlântica; o interior do estado já entra no Cerrado, enquanto a Bahia se costura em três biomas. No projeto, cada região vai para o pavilhão do seu bioma e o visitante descobre vizinhanças não observadas a partir da cartografia convencional.
A distribuição dos pavilhões dentro do PACUBRA se apoiou em outra referência: as feiras de rua. Zanatta estudou como os feirantes ocupam o espaço de forma orgânica e temporária, montando e desmontando barracas conforme o fluxo de pessoas, e transpôs essa lógica para o percurso expositivo. O visitante entra pelo térreo, sobe a rampa e começa pelo segundo pavimento, onde estão Pampa, Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal. Ao descer para o primeiro, percorre Caatinga e Amazônia. Entre os pavilhões, espaços que o projeto chama de “respiros” oferecem bancos e coberturas leves para pausas.
Cada pavilhão estadual funciona como um apartamento completo, com cerca de 100 m², e foi projetado por arquitetos escolhidos em concursos organizados pela Archa, sem curadoria centralizada. Todos os estados receberam a mesma metragem, independentemente de população ou peso econômico. O concurso reuniu mais de 1.300 projetos, avaliados por profissionais vinculados ao CAU de cada estado.

O Pavilhão de Santa Catarina, no bioma Mata Atlântica, é assinado por Jeferson Branco e um dos que investem com mais consistência na relação entre curadoria e projeto. Branco reuniu mais de 75 artistas e designers catarinenses para questionar a leitura recorrente de que o estado se resume a uma herança europeia. O espaço preserva o piso de concreto original de Niemeyer, mantém os pilares aparentes e respeita os eixos visuais para o entorno do Ibirapuera. Sobre essa base, um cubo central revestido com azulejos do artista Walmor Corrêa retrata a fauna da Mata Atlântica catarinense, incluindo espécies de bromélias catalogadas pelo biólogo Padre Raulino Reitz. O cubo concentra toda a infraestrutura rígida do apartamento, liberando o restante para uma planta livre onde o living, a cozinha, a suíte e o home office se organizam em percurso contínuo.

No Pampa, os escritórios Matte Arquitetura e Studio Carbono, de Bento Gonçalves, assinam “Querência Amada” no pavilhão do Rio Grande do Sul. O pavilhão coloca a cozinha no centro da casa, como lugar onde a convivência de fato acontece, e a narrativa se apoia na figura do chef Rodrigo Bellora, que traduz a tradição gaúcha a partir de ingredientes simples tratados com técnica. O nome homenageia os 50 anos da canção de Teixeirinha. A materialidade trabalha com tons terrosos, madeira e tecidos que combinam o bruto com o refinado.

No Cerrado, no Maranhão, Larissa Catossi e Guilherme Abreu usaram barro no piso e paredes, uma paleta em azul e vermelho extraída da bandeira do estado, e no centro da sala de estar posicionaram uma escultura-instalação que reinterpreta as matracas do Bumba Meu Boi em aço inox e madeira. Obras de artistas como Gê Viana, Marcone Moreira e Pedro Neves completam o acervo.
No Pantanal, o Mato Grosso do Sul apresenta a Casa Ñandejara, assinada pela DNA Deborah Nazareth Arquitetos. O projeto cria a morada fictícia de um jovem empresário pecuarista e se inspira na poética de Manoel de Barros para traduzir a identidade sul-mato-grossense. A principal solução arquitetônica são três paredes curvas em madeira nogueira, inspiradas nas lagoas pantaneiras, que dividem os ambientes sem o uso de portas e transformam o percurso em um trajeto fluido e contemplativo.

A experiência da BAB se estende para além dos pavilhões. Na área externa, a Casa Electrolux, assinada pelo escritório Superlimão, parte da biomimética para propor o que chama de casa do futuro. A estrutura flutua sobre o terreno em um piso elevado de madeira de reuso, inspirado nas palafitas do Norte e nas construções do Sul do país. Os pilares foram impressos em 3D a partir do corte transversal do caule da bananeira, com uma fórmula de cimento mais sustentável, e funcionam como conduítes naturais para fiação e tubulação. A cobertura, em madeira engenheirada, reproduz o sistema da flor do algodoeiro-da-praia: vigas que se apoiam umas nas outras em estrutura recíproca autoportante, capaz de dialogar com os ventos. As paredes, feitas com lã de PET reciclado e revestidas com tintas à base de terra, regulam umidade e temperatura como os antigos cobogós e a taipa de pilão. Uma claraboia central completa o sistema, permitindo iluminação natural e saída de ar quente por convecção, dispensando ar-condicionado.

O restaurante Biomas, assinado pela Cité Arquitetura, divide-se em dois salões que evocam a Caatinga e a Amazônia, com 84 lugares sob o comando do chef Leo Sanchez. As cadeiras foram bordadas à mão com peixes do Vale do São Francisco e da bacia amazônica, e obras de Luiz Eduardo Rayol representam os rios como elemento vital de cada bioma.
Para Anna Rafaela Torino, diretora de conteúdo da BAB, o evento responde a uma questão que vai além do setor. “A arquitetura ainda é pensada de forma pontual, quase sempre no momento da reforma. A BAB nasce para ampliar esse olhar, propondo que a arquitetura seja percebida como cultura, como pensamento e como repertório cotidiano, algo que atravessa a vida das pessoas muito antes e muito além da obra”.
