Design colecionável ganha espaço nas feiras e eventos do setor

O design colecionável não é um fenômeno novo, mas a atenção que recebe hoje é diferente da de décadas anteriores. Por muito tempo, peças únicas, edições limitadas e objetos produzidos com materiais raros e processos artesanais circulavam em circuitos restritos, entre colecionadores especializados e algumas galerias dispostas a tratá-los como arte. O mercado mais amplo, incluindo feiras de móveis, arquitetos em busca de fornecedores e o público geral do design, olhava para esse segmento com interesse, mas sem dar a ele um espaço formal. O que mudou nos últimos anos é justamente isso: o design colecionável passou a ser reconhecido como categoria legítima por alguns dos eventos mais relevantes do setor. Dois exemplos recentes, ambos de 2026, deixam isso claro.

Em abril, a SP-Arte chegou à sua 22ª edição com 64 expositores no setor de design, número que triplicou desde que a feira acolheu estúdios de design autoral pela primeira vez, em 2016. O crescimento não é apenas quantitativo. O design ocupa hoje o térreo inteiro do Pavilhão da Bienal e é tratado dentro da SP-Arte com o mesmo critério curatorial aplicado às galerias de arte: há contexto e há uma leitura crítica do que se expõe. A edição deste ano trouxe ainda a exposição “Existe uma árvore”, com curadoria de Livia Debbane e Patricia Dranoff, que tomou a madeira como fio condutor para percorrer a história do mobiliário moderno e contemporâneo brasileiro. Colocar uma exposição com esse recorte histórico dentro de uma feira de arte é um posicionamento claro: o objeto de design é tratado aqui como obra com trajetória.

No mesmo mês, o Salone del Mobile.Milano estreou o Salone Raritas, a primeira iniciativa da feira dedicada exclusivamente ao design colecionável, edições limitadas, antiguidades de design e manufatura criativa de alto nível. Instalado no Pavilhão 9 do Salão, o espaço reuniu cerca de 25 expositores selecionados: galerias internacionais, antiquários, fabricantes de excelência e produtores de edições especiais. A concepção espacial ficou a cargo do estúdio Formafantasma. O conceito reinterpretou o espaço da feira como uma grande lanterna arquitetônica, um percurso de ilhas modulares que permitia a cada expositor expressar sua identidade dentro de uma narrativa coletiva.

O próprio nome escolhido para a iniciativa diz muito. Raritas vem do latim e remete a raridade, singularidade e excepcionalidade buscada. O Salone, a maior feira de móveis do mundo, reservou pela primeira vez um pavilhão inteiro para peças que, por definição, não se repetem.

O que esses dois eventos sinalizam é algo mais amplo do que uma tendência de nicho. Tanto a SP-Arte quanto o Salone passaram a dar ao design colecionável um lugar estruturado dentro de suas programações, o que muda o modo como arquitetos, colecionadores e operadores do mercado se relacionam com esse tipo de produção.

Para o campo da arquitetura e dos interiores, isso tem implicações concretas. A peça colecionável ganha um papel mais definido dentro do projeto e passa a ser uma camada de significado. Ela carrega a história de quem a fez, o tempo que levou e a decisão de não a reproduzir indefinidamente. Em um momento em que a identidade dos espaços é cada vez mais valorizada como diferencial, esse tipo de objeto passa a ter um peso que vai além do estético.

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