A 15ª edição da DW! Semana de Design de São Paulo, realizada entre 5 e 22 de março sob o tema “Legado Criativo”, deixou uma impressão que vai além do volume de sua programação. Com mais de 400 atividades distribuídas por nove distritos da capital paulista, o festival funcionou como um termômetro das questões que ocupam o design contemporâneo brasileiro, e a leitura que emergiu da programação foi bastante clara: a ideia de habitar atravessa hoje um processo de revisão profunda, no qual tempo, memória e território ganharam peso inédito frente à novidade e ao consumo.
O centro de São Paulo concentrou as evidências mais fortes dessa virada. A região, que vive um momento de revitalização criativa sustentada pela instalação permanente de artistas e designers em prédios históricos, deixou de ser apenas um endereço entre outros no mapa do festival e se afirmou como o território onde essas questões encontraram a maior densidade de respostas. O Distrito Centro reuniu propostas que, vistas em conjunto, apontaram para um entendimento do design menos interessado na produção de objetos novos e mais atento à ativação de camadas já existentes na cidade.

A exposição “Desenhar o espaço, habitar o tempo”, na Biblioteca Mário de Andrade, que celebra seu centenário, talvez tenha sido a tradução mais precisa desse espírito. Ao apresentar o mobiliário original do edifício projetado em 1936, a mostra evidenciou como mesas, cadeiras e estantes que permanecem em uso há cem anos acumularam um valor que ultrapassa a função: tornaram-se patrimônio vivo, inseparável da experiência do espaço público. O design, ali, aparecia como algo que se deposita no tempo, e a permanência dos objetos revelava uma inteligência projetual que dispensava qualquer atualização.
Essa mesma lógica de ativação do existente atravessou o circuito de ateliês em prédios históricos do centro. No Edifício Gibraltar-Bratke, nos Ateliês Martins Fontes e no Espaço República do Edifício Comandante Linneu Gomes, o público encontrou artistas e designers que mantêm espaços de trabalho permanentes nesses edifícios e que, ao abrirem suas portas, revelaram uma relação produtiva entre criação contemporânea e arquitetura de meados do século XX. O ceramista recifense Diego Rosendo, a marca Call Jim de Luis Guido, as peças em bronze e cerâmica de Henrique Rainha, tudo isso ganhava outra dimensão por estar inserido em edifícios de Oswaldo Bratke, com suas fachadas de vidro e acabamentos em pastilha. A arquitetura participava da experiência.
O Ateliê Kaue Fuoco condensou esse fenômeno de modo exemplar. A inauguração do primeiro espaço permanente do coletivo Kura, que ao longo de seis anos ocupou edifícios como a Ocupação 9 de Julho e o prédio da antiga Telesp, sinaliza uma mudança de escala no circuito criativo do centro. O mobiliário feito a partir de garimpos urbanos e os materiais reaproveitados da antiga companhia telefônica revelam um método de criação que nasce da escuta do lugar.

Na Galeria Metrópole, a exposição “Dentro de Casa” trouxe outra camada a essa reflexão. Peças de mais de 30 designers e artistas brasileiros foram dispostas em ambientes que simulavam salas de jantar e de estar, sob curadoria de Daniel Virgnio e Natália Martucci. O interesse da proposta estava menos nos objetos individuais e mais na operação curatorial: ao inserir design em contextos domésticos reconhecíveis, a mostra tratava a casa como campo de investigação cultural, um lugar onde escolhas materiais e formais traduzem modos de vida.
Ainda no Distrito Centro, o BoomSPDesign elegeu a italiana Sara Ricciardi como Designer do Ano pela série de vasos Orchid Venus, executados em cerâmica com uma argila especial desenvolvida para suportar as grandes alças inspiradas em folhas de orquídea. E a Casa Reina, em sua segunda participação no festival, apresentou “Raízes em Permanência”, reunindo mais de 25 artistas afro-latinos e indígenas para afirmar a ancestralidade como estrutura viva do design brasileiro. As duas propostas, cada uma a seu modo, reforçaram o argumento central desta edição: o valor do projeto está na profundidade do processo, na relação com a matéria e com as referências culturais que o sustentam.

Fora do centro, a programação confirmou que essas preocupações não são localizadas. No Distrito Pinheiros, a ABERTO5 ocupou a Casa Bola, construída manualmente entre 1974 e 1979 pelo arquiteto Eduardo Longo, que abriu as portas ao público pela primeira vez. Com curadoria de Filipe Assis, Claudia Moreira Salles e Kiki Mazzucchelli, a mostra distribuiu cerca de 60 obras pelos 1.000 m² do edifício e tratou a própria casa como escultura habitável, propondo percursos onde corpo e arquitetura se condicionam mutuamente.
Também em Pinheiros, a mostra IMPERMANÊNCIA reuniu 63 artistas em sobrados na Rua Cônego Eugênio Leite, privilegiando experimentação e autoria individual. No Distrito Paulista, a Casa Dexco abrigou a exposição “(in)SUSTENTÁVEL (in)PERMANÊNCIA (in)DESIGN”, com curadoria dos Decornautas, organizada em quatro núcleos que investigaram o tempo como dimensão do projeto. No Distrito Gabriel, a exposição Mutualismos, na Estar Móveis, abordou a dissociação entre humanidade e natureza por meio de instalações como “Ilhas Secas”, de Sonia Guggisberg, sobre os rios soterrados de São Paulo. Na mesma região, a Portobello Shop inaugurou sua primeira flagship paulistana, com projeto de Isay Weinfeld e a sustentabilidade como eixo central. E no Campo Belo, a Casa-Ateliê Tomie Ohtake abriu uma nova fase como espaço cultural com “Ruy Ohtake — Percursos do habitar”, onde o conceito de casa-praça revelou como o arquiteto reorganizava as hierarquias do morar ao longo de cinco décadas de produção, incluindo o projeto de habitação social dos “Redondinhos” de Heliópolis.

O que a DW!15 registrou, no fim, foi uma reflexão. A casa, como tema, deixou de ser apenas o destino final do produto e passou a funcionar como ponto de partida para perguntas mais amplas sobre como queremos viver. E se o centro de São Paulo emergiu como protagonista desta edição, é porque reúne, em poucos quarteirões, todas essas tensões: história e contemporaneidade, permanência e transformação, memória urbana e invenção cotidiana. O festival soube ler esse território e torná-lo palpável para quem o percorreu.
